TV a cabo, parafusos e canal cortesia.

Estava sentada naquele sofá vinho de couro que minha mãe havia me dado de presente quando me mudei pra esse apartamento de merda. Sim, odiava morar ali, só não me mudava por falta de opção e falta de dinheiro. Apertava qualquer botão da televisão procurando por algum programa que prestasse até que o cara que iria instalar a TV a cabo chegasse. Mas só passava aquele programa inútil da Globo, Vídeo Show – acho – e nos outros canais só a desgraça da vida dos outros. Isso era realmente irritante. Qualquer canal que você colocava as mesmas notícias. Por isso resolvi colocar TV a cabo. Na verdade não foi bem isso, implorei pra que minha mãe pagasse. Porque nas situações que estou ultimamente, só consigo pagar o aluguel e o estoque dos meus armários, que não está lá uma coisa tão bela. Peguei o pacote mais barato, que vinha até com um ponto de internet. Era para a minha felicidade mesmo. Uma, duas, três batidas na porta. Até que enfim! Abri a porta com uma ponta de animação, por ser o cara da TV a cabo, finalmente teria algo que preste na televisão. Poderia até começar a acompanhar alguma série. A porta revelou um cara realmente lindo. Não era como aqueles modelos de revistas, dos olhos claros e uma barriga com tanquinho. Mas ela lindo, não podia negar. Seus olhos eram castanhos e pareciam ter alguns fios verdes, mas porque eu estava reparando nos olhos do cara da TV a cabo? “Bom dia senhorita, licença” “Paloma” “Oi?” “Paloma – que oferecida – Só pra você não me chamar de senhorita” “Ah sim, desculpa Paloma” – disse ele enquanto engrossava a voz ao falar o meu nome e dava um sorriso torto. Porque ele estava sorrindo pra mim? Eu era uma completa desconhecida, ele nem sabia se eu era uma maluca que tinha partes do corpo guardadas na geladeira. Mas irrelevante, poderia ser alguma coisa da empresa, como seja-gentil-com-nossos-cliente-se-não-tá-na-rua, ou algo assim. Me joguei no sofá e fiquei supervisionando o trabalho do cara da TV a cabo. Não sei por que, mas aquele silêncio estava me corroendo aos poucos, me fazendo ficar desconfortável. E me sentia na obrigação de ser simpática com o cara, perguntar o nome ou até aquela pergunta fodida “Há quanto tempo faz isso?” – saiu sem querer, juro, não era pra eu ter perguntado uma coisa tão besta quanto essa. Mas não tinha mais volta né, já tinha perguntado e não podia pegar minha apagamemóriainator – “Há poucos meses” Porque ele respondia tão pouco e nem se quer olhava pra mim ao responder? E eu tentando ser ainda mais simpática com o cara “Quer água, um suco, qualquer coisa? Aposto que ficar indo de casa em casa é cansativo”. Claro que era cansativo, porque eu estava tão besta? Eu não era assim, e porque eu estava sendo simpática com um cara que eu não tive nem coragem de perguntar o nome? “Agradeceria se a se… – ele pensou bem e se corrigiu enquanto sacudia a cabeça – se você me desse uma água” “Claro, gelada?” “Por favor, se puder” Que educado, estava conseguindo me conquistar com tanta educação. Ou será que toda essa educação era pra esconder uma possível vergonha? Porque foi aí que percebi que estava com um mini short, aquele que uso pra dormir e regata. Quem vê pode até pensar que sou oferecida, mas não sou. Eu estou em casa, cara, tenho que ficar a vontade na minha casa. Peguei o copo cheio até a boca e entreguei para o cara. Me apoiei no balcão olhando ele beber aquele copo inundado de água. “Como é seu nome?” “Théo” “Bonito nome” “Obrigado, e obrigado pela água” – disse enquanto me dava o copo e me encarava com aqueles olhos que faziam com que eu ficasse envergonhada. Parecia até que conseguia ver minha alma. Ok, depois dessa olhada que ele deu pra mim vou ter que ligar pra minha mãe e dizer que achei o genro que ela sempre procurou. Ri sozinha e ele percebeu, e ficou me olhando com uma cara estranha. “Do que ta rindo?” Meu deus, ele puxando assunto? Realmente me surpreendeu aquela cena. Ele interessado em alguma bobeira que me fez rir, respondi rapidamente que me enrolei com as palavras “Na-nada” E ri de novo, estava me sentindo uma completa imbecil. Mas incrivelmente ele também riu. E seu sorriso, não o forçado como mais cedo, era lindo. “Sei, o que eu fiz de tão engraçado pra tirar um sorriso teu?” “Entrou por aquela porta” Juro que pensei em dizer isso. “Nada” “Você tem respostas muito curtas” Olha quem fala, agora a pouco não queria assunto agora ta comentando sobre minhas respostas, será que eu coloquei algum alucinógeno naquele copo d’água? Ele ficou menos envergonhado e só faltava arrancar a camisa abanar a mão na direção dele e dizer que está calor. Falta pouco pra isso. E sem ter o que responder fiquei quieta, brincando com alguns parafusos que ele havia deixado em cima do balcão. Parafusos? Pra que ele iria usar parafusos pra só instalar uma TV a cabo? E só pra uma instalação estava demorando mais do que o esperado. “Pra que você precisa de parafusos Théo?” “Parafusos?” “É, você deixou alguns aqui no balcão” “Aqui não preciso usar parafusos, devo ter tirado do bolso por algum motivo que não sei qual é” Dei um risinho e os recolhi de cima do balcão, fazendo um montinho deles no cantinho. E depois fiquei batendo com as minhas unhas no balcão fazendo aquele barulho irritante. “Pronto” “E a internet?” Ele enfiou a mão no bolso e tirou um modem. “Quase esqueci – colocou o modem em cima do balcão e foi caminhando até o sofá vinho e tendo a liberdade de se sentar nele – e você vai ter que vir aqui pra eu poder te ensinar como ligar a televisão sem desconfigurar e ir direto pra televisão normal” “Tá bom” – saltitante como uma gazela fui em direção a ele sentado no sofá, me joguei do lado dele e encolhi minhas pernas e enfiei minhas mãos entre elas. Ele me explicou tudo com o a maior atenção, me explicou o que cada botãozinho do controle fazia. Qual iria par ao menu, qual retornava pro canal anterior e qual era o botão que iria para o canal cortesia que ele fez o favor de colocar pra mim. “Muito gentil da sua parte” Ele riu e isso fez com que eu também risse. Depois ficamos em silêncio, só vendo nossas imagens refletidas na TV, pode até parecer uma coisa clichê. Mas parecia até perfeito nós dois juntos. Ele com aquele jeito que pude perceber todo atrapalhado e engraçado. E eu que sabia muito bem ser a parte séria, mas engraçada. Desajeitada, mas ajeitada. Tudo ao mesmo tempo. “Põe no canal cortesia ai” “Ele só passa filmes, não tem problema né?” “De jeito nenhum, acho até melhor” Rapidamente ele colocou no canal 178, e estava passando aquele filme que eu sempre ouvi falar. Todos diziam ser lindo. Cartas Para Julieta. O título até que transpareciam que o filme era realmente uma coisa boa. Mas não sei, e pelo o que mostrava no menu o filme já estava no final. Se não me engano estava na parte em que um homem estava subindo em algumas plantas grudadas na parede. Acho que era mais ou menos isso. Antes mesmo que eu raciocinasse, ele disse enquanto se inclinava pra frente “Gosto desse filme!” “Nunca assisti” “É legal, recomendo” “Fala sobre o que? Não é meio estranho um cara gostar de filme de romance não?” “Não acho tá? – ele fez uma careta e continuou falando – Ah, não sei explicar. Ele vai passar de novo mais tarde. Oito da noite se não me engano. Assiste, é legal.” “Vou assistir então” “Ok” Se levantando e olhando no relógio ele rapidamente ajuntou suas coisas e disse enquanto me dava o controle “Foi bom te conhecer Paloma” “Digo o mesmo Théo” Me deu o controle e saiu rapidamente. Tranquei a porta e me joguei no sofá vendo o final do filme, eu sei que iria acabar com a graça de assistir ele mais tarde e já saber o final. Mas foda-se. Tinha alguma coisa no sofá que estava me incomodando, me pinicando. Levantei e era um pedaço de papel. E nele tinha oito números escritos. E embaixo com uma letra um tanto tremida “Théo”. Fiquei no mínimo uns três minutos admirando aquele papel, eu iria ligar pra ele? E falar o que? “Ei Théo, você esqueceu seu número escrito em um papel em cima do meu sofá” Que coisa ridícula.
18h37m “Alô?” “Oi Théo é a Paloma. Você esqueceu seus parafusos em cima do meu balcão. E se vier correndo ainda dá tempo de você assistir aquele filme comigo
Isabela Bastos, fixed-it (via un-blamed)

(Source: FIXED-IT, via inc0nsequencia)

1 week ago

A gente nunca acha que, vai ser amor. E acaba sendo. Nunca imaginamos que, doeria. E doeu. Nunca teríamos a certeza que, seriamos tão idiotas. E acabamos assinando embaixo. Arte Poética.    (via verdadessobremeninas)

(via inc0nsequencia)

1 week ago

  • E tem horas que a saudade aperta, né?

    (Source: SE-EU-PUDESSE, via itsmyafterlife)

    2 weeks ago

    Nível de amizade: ”ai me machuquei.. ” ”KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK BEM FEITO”

    (Source: a-cafetina, via itsmyafterlife)

    2 weeks ago